Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

29 de agosto de 2011

Solidariedade


Yaseturo Yamada - engenheiro aposentado e autor da idéia
Já vi solidariedade em tempos de furacão, enchente, de guerra, de fome, mas dessa natureza, nunca tinha visto. É infinito o nosso poder de expandir mais nossa criatividade, nossas possibilidades, nosso servir, nossa amorosidade...

Coloco aqui na íntegra o post do blog de Marta Medeiros, mostrando um grande exemplo de solidariedade, de consciência de que fazemos parte de um grande todo.


Marta Medeiros – Espírito de Coletividade

Recebi um texto sem autoria, e só tive como comprovar sua autenticidade através do google, que ora avaliza os fatos, ora nos faz de bobos. Mas, ao ler seu conteúdo, tive forte impressão de que é verdade.

O fato: um grupo de 200 aposentados japoneses, engenheiros em sua maioria, está se oferecendo para substituir trabalhadores mais jovens no perigoso trabalho de manutenção da usina nuclear de Fukushima, que foi seriamente afetada pelo terremoto de quatro meses atrás. Os reparos envolvem altos níveis de radioatividade cancerígena, como se sabe.

Em entrevista à BBC, o voluntário Yaseturu Yamada, de 72 anos, diz que tem procurado convencer o governo sobre as vantagens de se aceitar a mão de obra da terceira idade. Conclui ele: “Em média, devo viver mais uns 15 anos. Já um câncer vindo da radiação levaria de 20 a 30 anos para se manifestar. Logo, nós que somos mais velhos temos menos risco de desenvolver a doença.”

Ou seja: cidadãos que estão na faixa entre 60 e 70 anos, muitos deles inativos, querem dar sua última contribuição à sociedade e, ao mesmo tempo, liberar os jovens de um trabalho que lhes subtrairia muitos anos produtivos de vida, enquanto que, para homens de idade mais avançada, não haveria diferença significativa.

Essa é uma notícia que deve fazer refletir a todos nós. Não se trata apenas de generosidade, mas de consciência. Os idosos japoneses não estão sendo bonzinhos, e sim exercendo o sentido de responsabilidade, que a eles é muito comum. Estão pensando na sociedade como algo que só funciona em conjunto, e não individualmente.

Acredito que quando a gente faz o bem para si mesmo, com ética e respeito à lei, sem ônus para nossos pares, está fazendo também o bem para todos, mas não basta: é preciso ir além, desconectar-se das vantagens pessoais para pensar no futuro, no que temos para doar em benefício daqueles que têm mais a perder.

Um jovem de 18 anos pode contrair câncer aos 38 se trabalhar numa usina nucelar acidentada. A sociedade japonesa perde se abrir mão da força de trabalho de cidadãos de 38 anos. A família japonesa também. É essa visão macroscópica da funcionalidade que faz evoluir um país.

Dizem que a gente fica com o coração mole à medida que o tempo passa. Não é por causa de coração mole que esses aposentados japoneses estão se candidatando a um trabalho insalubre. É porque estão acostumados a transformar intempéries em oportunidades, tanto pessoais quanto coletivas, sem distinção. Coração mole tenho eu que me emociono ao ver como seria fácil ser grande, se tivéssemos a grandeza necessária.

28 de agosto de 2011

Bom humor


Recebi esse video de um amigo amante de vinho, que sabe de meu entusiasmo por Yoga. Acho que ele cabe aqui neste blog "Coisas da Vida" pelo bom humor e pela delicadeza nas imagens....

Tempo

Nossa! O tempo está indo cada vez mais rápido! Nossa! Já é setembro! Nossa! O ano já acabou!

Quantas vezes ouvimos ou dizemos isso? Ficamos tão impressionados que achamos que o tempo está andando mais rápido que antigamente.

Mário Quintana escreveu:
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

No nosso dia-a-dia, às vezes sentimos que não temos tempo para nada, nem mesmo para dar conta das atividades no nosso trabalho. Está ocorrendo um fenômeno comum nas empresas, por exemplo, onde os funcionários têm muito trabalho e, por terem competência, lhes é passado mais trabalho. E como é humanamente impossível executá-los de forma orgânica, surge então a frustração de ter trabalhado muito, dedicado muitas horas, inclusive abrindo mão dos horários de descanso e, no fim, o trabalho não foi totalmente concluído ou só foi concluída parte dele.

Mas não só no trabalho profissional sentiremos essa frustração, mas também em nossa vida pessoal quando o que planejamos não se concretiza, quando o rumo de algum evento é diferente daquilo que organizamos previamente. A frustração então é gerada por criarmos expectativas que não se realizam, provocando mal-estar.

Como em tudo em nossa vida, temos escolhas. Se observarmos e enfrentarmos a frustração, sem negá-la ou evitá-la, podemos observar que ela é uma forte força de movimento e não de estagnação como a gente imagina num primeiro momento. Grandes realizações da história da civilização aconteceram em momentos de frustração e sofrimento − como, por exemplo, as pestes e as vacinas, a penicilina, as inúmeras aplicações tecnológicas da ciência etc. O fato de nos sentirmos imperfeitos e incompletos nos acorda, nos motiva a procurar sempre a perfeição.

Segundo Héctor Rafael Lisondo, psicólogo, na trilha em busca da evolução “tem-se muito mais contato com a frustração do que com a satisfação e, mais ainda, pode-se dizer que a segunda é consequência da capacidade para lidar com a primeira. Até de uma perspectiva psicológica, também se pode afirmar que a nossa missão como pais na formação dos nossos filhos não é o compromisso com a felicidade deles, mas com o seu desenvolvimento, e este nem sempre implica em felicidade ou alegria. Freud acreditava que o homem caminha em duas direções: a busca de evitar o sofrimento e o desprazer e a procura da experiência intensa de prazer. Convém aos líderes conhecer esta realidade e tomar contato com o inevitável sofrimento que os acomete assim como aos seus seguidores, na trilha cotidiana da vida organizacional. Está ali, adormecido, um rico potencial de criatividade e desenvolvimento que, se bem canalizado, pode vir a resultar em realizações. Trata-se de ajudar as pessoas para que as inevitáveis contrariedades não as conduzam à desesperança, à resignação ou à depressão e possam lutar para transformar o limão em limonada, a fazer um bom negócio a partir de um mal negócio. Todavia, não se trata de apelar a exortações ocas e/ou hipócritas, mas de criar oportunidades para poder falar sobre esses dolorosos e inconfessos sentimentos, que de outra maneira, se permanecerem ocultos, acabam por produzir fantasias de incompetência, e/ou impotência, e/ou negação. 

Para isso é necessário que a função da liderança inclua a construção de relações de respeito e confiança com os seguidores. Trata-se da disposição para investir permanentemente em relacionamentos de qualidade, capazes de enfrentar a verdade com coragem − não apenas a verdade relacionada ao mundo externo, mas principalmente o contato com a verdade oculta na interioridade própria e dos seguidores, aquela que nos poderia dizer o que realmente somos. Trata-se da coragem para contestar crenças e paradigmas profundamente enraizados na nossa cultura organizacional, como o de querer ocultar as fraquezas e parecer o que não se é − tentativa essa que, em geral, se constitui apenas como ledo engano, uma vez que acalma a ansiedade às custas de inibir o pensamento e a criatividade.

Estava eu aqui falando do tempo e me enveredei a falar de frustrações. De qualquer forma as coisas são todas ligadas. Novamente aqui, a resposta é interna: ela está na observação do que eu sinto, do que eu experimento física, emocional e espiritualmente. Esses conteúdos nos levam a paragens mais expansivas porque temos que olhar para nossas “velhas formas do viver”, para nossos valores, para como eu quero viver a minha vida, o que é realmente importante neste momento da minha experiência humana. Nesse movimento criamos uma força interna que nos impulsiona para buscar saídas criativas que podem, como disse o poeta, “transformar as velhas formas do viver”.

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!...
(Gilberto Gil)

20 de agosto de 2011

Bastão

No Yoga há várias posturas (asanas) e cada uma delas traz um conteúdo físico, emocional, energético e espiritual. Esta semana estive praticando a postura do bastão, o “dandasana”. É uma postura que ficamos sentados com as pernas juntas, esticadas e pés alongados com as mãos sobre os joelhos e coluna ereta. Ufa! Pensei: moleza. Nem tanto. Percebi que para me sustentar era preciso ativar as coxas para que eu conseguisse o apoio necessário para que as costas não caíssem. Qualquer pessoa que ali me visse, pensaria que eu estava numa boa, sentada e descansando. Mas, na verdade, tudo começou a esquentar e comecei a suar. Parecia tão simples!

Lembrei da explicação da professora Rosângela sobre o bastão: é ele que nos dá apoio, sustentação. Fortalecemos nossas pernas para ficar em pé com sustentabilidade e para isso eu trago o bastão para dentro de mim. Eu me sustento nas minhas próprias pernas. O bastão nos dá autoconfiança. Eu confio em mim e fico em cima de mim.

Quantas vezes eu deixei de usar meu próprio bastão, quantas vezes o entreguei para outras pessoas. Quantas experiências precisei experimentar, por mais difíceis que fossem, para entender que esse bastão, essa sustentação existia dentro de mim. O bastão do outro pode me sustentar por alguns minutos, mas a confiança interna só terei se usar meu próprio bastão. Também não posso entregar o meu bastão para o outro, porque com isso eu não permito que o outro descubra sua própria sustentabilidade.

Agora compreendo tão bem o quão arrogantes somos algumas vezes ao achar que podemos mudar o outro, mudar a vida das outras pessoas ao darmos nosso bastão, a nossa sustentabilidade. Não só não permito que o outro descubra o seu próprio como, ao entregar meu bastão, me desequilibro e posso até mesmo cair. O outro é importante em nossa vida, mas não é o nosso complemento.

Passei bons anos de minha vida achando que podia mudar a vida de pessoas de minha família, por exemplo, para o que achava ser o melhor para elas e acabei entregando o meu bastão. O resultado é que não só eles continuaram a viver e ter as experiências que eles escolheram por si próprios como eu, além de não mudar suas vidas, me desequilibrei e fiquei tentando me achar na experiência.

Confesso que demoraram alguns anos para eu compreender que não mudamos ninguém. Que cada alma busca sempre suas próprias experiências para suas próprias aprendizagens. Podemos quanto muito inspirar o outro à medida em que vivemos nossas verdades apoiados em nossos próprios bastões.

Agora, aqui sentada nessa postura do bastão (Dandasana), com minhas costas queimando, minhas coxas vibrando, sinto uma onda de intensa emoção feita de compreensão.
Sustento-me um pouco mais nessa postura para que essa emoção vá se integrando em meu ser.
Depois desfaço a posição.
Relaxo meu corpo e, enquanto sinto os efeitos do asana, sinto uma tremenda gratidão de ter tido essa compreensão profundamente agora.

Água

Enquanto chove nesse sábado, olho a janela e decido colocar esse video pequeno mas muito sensível. Como parte de nosso processo de crescimento tomamos consciência de que vivemos integrados na natureza. Somos a natureza. 
video

14 de agosto de 2011

Foguinhos

Li um poema de um escritor uruguaio, Eduardo Galeano, que me remeteu àquela questão de sempre: quem somos nós? Corremos tanto no nosso dia a dia, nos envolvendo tanto com os eventos que vão e vem e acabamos achando que estamos aqui então para isso mesmo, resolver problemas, ganhar dinheiro para ter aquela televisão nova ou o novo modelo de celular. Criamos tantas necessidades e depois temos que mantê-las a um preço tão alto que acabamos por esquecer quem realmente somos e para que estamos nesse planeta, nesse momento da existência.

Temos tanto medo da falta que dedicamos toda a nossa vida para um trabalho que muitas vezes nem faz tanto sentido assim para nós. Nada de errado em dedicar grande tempo de sua vida para uma atividade, desde que ela satisfaça nossas partes emocional, física, psicológica e espiritual ou, pelo menos, que a gente contrabalance com algo a mais, pois é nesse balanço, nessa fluidez de nossas várias facetas da vida que encontraremos uma paz interna para podermos lidar com eventos tão diversos.

Não adianta perseguirmos somente situações prazerosas, a vida é feita de contrastes. O ideal é conseguirmos transitar pelas dores e prazeres aprendendo e iluminando-se com cada uma delas. Na maioria das vezes temos essa compreensão, mas temos dificuldades de colocar isso na prática. Como lidar com minhas partes física, emocional e espiritual se não tenho tempo para fazer mais nada, pois meu trabalho me exige uma dedicação intensa? E nos bloqueamos nessa pergunta e assim nos acomodamos.

As perguntas têm que ir mais além, nós temos de dar um passo em frente ou ficaremos vítima de nossa própria crença de “não tenho tempo para nada”. Boas perguntas seriam: “O que eu gostaria de fazer se tivesse mais tempo? Por que isso é importante para mim? Para onde eu quero ir com a minha rotina atual? Quais os prós e contras de ficar na posição atual?” E a partir daí, pensar em quais são as minhas possibilidades. Se não as tenho, como faço para criar essas possibilidades?

Seja qual for o caminho que escolhermos, é importante estar inteiros, conscientes de nossas várias facetas. Não somos só o nosso corpo físico, ou só nosso papel social, ou nossa profissão, ou nosso status, ou nossa crença limitante. Somos mais que isso.

Abaixo então o poema:

Um homem do povoado de Neguá no litoral da Colômbia
conseguiu subir no alto do céu e na volta contou.
Disse que tinha contemplado, lá de cima a vida humana
e disse que somos um mar de foguinhos.

“O mundo é isso”, revelou:
“um montão de gente,
Um mar de foguinhos.
Não existem dois foguinhos iguais.
Cada pessoa brilha com luz própria, entre as outras.
Existem fogos grandes e fogos pequenos
E fogos de todas as cores.

Existe gente de fogo sereno que nem fica sabendo do vento.
Existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas.
Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam.

Mas outros...
Outros ardem a vida com tanta vontade
Que não se pode olhá-los sem pestanejar
E quem se aproxima se incendeia.”